sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Além da Psicologia


Sempre fui inquieta com a condição humana. Mesmo na faculdade de Psicologia me incomodava os ensinamentos limitantes das possibilidades humanas. Ao final do curso comecei a me interessar por Nietzche e sua inteligência feroz, questionando os status quo. A filosofia poética e inquietante de seus aforismas apontava para algo além do estabelecido, mas ao mesmo tempo me angustiava não parecer mostrar outros caminhos para viver uma vida mais inteira e autêntica. Em algum lugar minha alma sabia que era possível viver algo além de um mero cotidiano massacrante, em busca de ser alguém.
Nesta mesma época, quando estava encerrando o curso de Psicologia ganhei de presente um outro livro do mesmo Mestre indiano que havia me tocado anos atrás. O título do livro era "Além da Psicologia". Hoje entendo o quão simbólico este título se anunciava. A partir dali todos os aprendizados da faculdade estavam fadados a cair por terra. Passei cinco anos aprendendo sobre como a mente humana funciona e de uma forma misteriosa, quando encerrei o curso, estava sem saber iniciando um novo aprendizado (ou desaprendizado) de como funcionar sem a interferência da mente.
Nesse período de transição, entre deixar de ser estudante para me tornar uma "profissional", um novo e desconhecido anseio me tomou. Comecei a me dedicar intensamente a este universo totalmente desconhecido das meditações ativas, do mesmo mestre indiano, agora conhecido como Osho. Foi nesse encontro com o um novo universo, que um lindo guia apareceu na minha vida. Um homeme 36 anos mais velho do que eu, sannyasin do Osho, tornou-se meu melhor amigo, irmão e amante. Com ele experimentei amar sem entender, confiar sem saber, e comecei a amar um Mestre que já havia partido deste mundo, mas que tinha deixado uma trilha palpável para os que tinham sede como eu.

Foram anos de experiências incríveis, com o corpo, as sensações, as emoções e a mente. Fui introduzida de forma inesperada a um vasto universo, uma outra dimensão ao mesmo tempo familiar e totalmente desconhecida. Me apaixonei pelas meditações, por mim mesma, pela vida – e mesmo sem entender o que estava acontecendo sentia algo mais profundo me guiando neste campo totalmente obscuro. Adentrei espaços nunca experimentados anteriormente de paz, êxtase, silêncio e vitalidade. Conheci minha sede e coragem de seguir sem o entendimento da mente.

Passei um longo período tentando integrar a psicóloga com a buscadora. O que me acordava e fazia feliz como pessoa não era a forma como eu trabalhava com as pessoas. Isso me angustiava, mas não havia nada que eu pudesse fazer para resolver esta equação. Só o tempo e o natural amadurecimento em minha busca foram me tornando uma pessoa Una.
Foi um momento intenso de muitas descobertas e desconstrução das imagens e conceitos que tinha de mim mesma. Seguia meu coração selvagem, me aventurando numa jornada interior que só aumentava minha sede. Seguia numa noite escura, tentando ser alguém em um mundo que nunca aceitei, ao mesmo tempo que descobria quem eu realmente era.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lampejos da Verdade


Sempre tive pressa, urgência. Uma inquietude latente com o que meus olhos viam a minha volta, desde a infância na família, na escola, nas ruas. Quando comecei a entender que estava viva, que era humana, me horrorizei frente a inconsciência, frente a feiúra; e me encantei com o mistério da natureza, com sua grandeza, com a beleza e a indiferença da existência. 
Me lembro, isolada numa ilha no Maranhão, na linha do Equador ao norte do Brasil. Andava à luz da lua cheia refletida na areia branca das dunas infindáveis, andava apavorada pela grandeza da existência e me sentindo só, entendi que aquele silêncio era indiferente a minha dor humana. Naquele momento não pude compreender minha própria visão, mas algo em meu ser já estava acordando e me guiava na noite escura. Naquela época tinha 19 anos e foi a dor de uma paixão adolescente não correspondida que começou a despertar em mim, uma confiança maior na vida.
Um ano antes, também lançada numa natureza virgem, longe da cidade, dos livros da faculdade, do sonho de ser alguém; devolvida à inocência de caminhar na praia, de descobrir lugares mágicos, de experimentar sensações incríveis ao tomar um LSD, de me apaixonar por um homem rústico e inacessível, caiu na minha mão o livro: Êxtase, a linguagem esquecida, de um indiano até então conhecido com Bhagwan Shree Rajneesh. Hoje sei que nada foi coincidência, que o Mestre, a Existência, o amor já estava lá me guiando, pelos caminhos esquivos da verdade, acordando em mim uma matéria estranha e suculenta, chamada sede. Tudo que li naquele livro era um reconhecimento incompreensível de que eu sabia do que ele estava falando. Me senti de mãos dadas com deus e senti que aquele homem falava, da forma mais linda, tudo o que minha alma ansiava.
Quatro anos depois, sem saber ao certo aonde estava indo, fui levada para participar de uma sessão de meditação ativa. Um senhor de cabelos brancos, super entusiasmado com vida se alegrou muito ao me ver me dando boas vidas. Tudo era estranho e natural. Minha mente não interferiu em nada. Fizemos uma meditação chamada Mandala, a qual ficávamos correndo no mesmo lugar por 15 minutos, depois girando sobre o próprio eixo e depois deitada girando os olhos de uma lado pro outro. Não entendi nada, sai exausta e feliz. Ali minha jornada, mais consciente, começava.

         

Início de um compartilhar


Há tempos atrás andando de carro nas ruas de São Paulo me veio esta estranha idéia de começar a escrever sobre minha jornada junto ao meu Mestre, Vasant Swaha. Lembrei do livro de uma discípula do Osho, My diamond days with Osho, e o quanto este livro me tocou enquanto discípula. Senti a importância de tudo aquilo que me ajuda no caminho, para que eu me dê ainda mais conta da realidade de que vivo. De que não é um sonho, embora a grande maioria esteja vivendo uma realidade completamente inversa à qual me dedico.
A vontade de escrever é mais um anseio de compartilhar, com aqueles poucos que deram o salto pra fora da maquinagem esmagadora. Para àqueles que encontram algo mais, que seguem o coração, mesmo sem saber. Para àqueles que confiam de que esta vida, está imbuída de mistério e que há algo maior do que apenas o cotidiano entediante o qual as pessoas-máquinas estão fadadas a viver, a não ser que elas acordem.
Neste caminho do acordar, reconheço em meu próprio caminhar, que há diferentes fases e momentos. Hoje, junto ao meu Mestre vejo e sinto tudo com mais clareza, através dos olhos Dele. Sou tão grata a existência em, pacientemente, ir me desvelando os caminhos misteriosos da verdade. Já caminhei no escuro por muito tempo, já me lancei sem saber o que buscava, já me perdi no anseio de algo maior que não conhecia, já chorei de gratidão por ter encontrado. Hoje descanso e relaxo no oceano do amor e da luz de meu Mestre, digerindo, processando, me entregando, acordando.
Este relato tenta contar esta jornada, de onde vim e onde estou. Um exercício delicioso de resgatar e encontrar palavras pra tudo aquilo que me trouxe até aqui. Todos os desafios no caminho, (todas as glórias e fracassos). Um compartilhar do coração, que apenas corações iram desfrutar. É um relato vivo, e por isso inacabado, que só terá seu fim quando meu espírito acordar.