segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Índia, revelação e encontro

        Ao final da temporada em Khakhnal éramos uma família. Samdarshi convidou a todos para uma viagem ainda mais ao norte, nos altos das montanhas. Um grupo de umas quinze pessoas, vindas de lugares distintos, ali estávam a viajar juntas e conviver de forma suave e simples. Uma alegria pura, leve estava a nossa volta, em conversas e encontros de seres que estavam a se buscar. Samdarshi se misturava entre nós, mas em muitos momentos sua luz e sabedoria vinha iluminar conversas "aparentemente" corriqueiras.
Me lembro um noite que estávamos a conversar sobre a jornada. Uma antiga sannyasin compartilhou o quanto sentia que as vezes parecia que "nada" estava realmente acontecendo. Samdarshi simplesmente comentou que tudo que ela estava vivendo seria realmente "revelado" no momento que ela acordasse. Me encantava essa "conversa", como se algo acordasse em meu ser e ali eu bebia de uma fonte pura. A viagem nas montanhas, as estradas sem destino, o estar disponível ao momento compartilhando a beleza de existir alegravam meu ser.
A temporada se encerrava em Khakhnal pois o clima começava a esfriar nas montanhas. Junto com Samdarshi e alguns amigos partimos para Jabalpur, no centro da Índia onde Samdarshi tinha um outro ashram. Lá senti uma Índia mais tropical e um resgate de algo ancestral que muito havia esquecido. Neste lugar muitos indianos vinham se juntar a esta energia e o clima era bem mais descontraído e íntimo. Samdarshi ficava mais entre nós, o que em alguns momentos me fazia esquecer que ele era um Buddha. 

Numa tarde linda, Samdarshi nos levou para passear no centro da cidade de Jabalpur. Entramos num parque e sentamos em baixo de um árvore. De repente Samdarshi falou: "aqui nasceu um Bhagwan" e o silêncio tomou conta. Esta tinha sido a árvore sob a qual Osho havia se iluminado. Foi uma tarde especial, como se tudo se encaixasse dentro de um mistério que nunca seria desvelado. Estava simplesmente feliz por fazer parte deste mistério.

Aos poucos sentia que estava chegando meu momento de partir. Despedir de Smdarshi e dos amigos que faziam parte desta minha jornada foi difícil mas chegava a hora de seguir sozinha. Senti vontade de ir a Puna e conhecer o ashram do Osho, o lugar onde tudo isso havia começado. Fui com um amigo grego que havia ficado muito próximo mas lá permaneci sozinha. No dia seguinte quando acordei não conseguia me levantar da cama. Minhas costas doíam tanto e eu pouco conseguia andar.
Meus últimos dias na Índia foram de dor e solidão. Pouco podia me mover e ir ao ashram era um enorme esforço. Lá não me sentia em casa e tudo era estranho e distante. Percebi o quanto minha viagem estava se encerrando. Passei quase vinte dias na cama digerindo tudo o que havia vivido. Chorava, ria, meditava, comia e dormia. Meu corpo gritava mas minha alma estava em paz.
Ainda no final da viagem, sentia uma enorme conexão com o primeiro Baba indiano que havia encontrado. Um dia pouco antes de partir liguei para ele e comentei do meu anseio de reencontrá-lo. Ele com sua doçura suave e certeira me disse: "não se preocupe, se a existência quiser que a gente se encontre nós iremos nos encontrar". Eu sorri e aceitei sua mensagem.
Viajei mais três meses, para a Alemanha e Grécia e voltei pro Brasil para viver um dos anos que seria um dos mais difíceis da minha vida.

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