Chegou um momento onde não era mais possível esperar. Meu ser clamava por espaço, por aprofundamento, por entrega. Eu, surda aos meus medos, comecei a planejar a primeira grande aventura de minha vida: ir sozinha para a Índia, em busca de um Mestre.
Com integral apoio de meu amigo-guia soube de um lindo mestre indiano, um senhor conhecido como Baba (o que depois vim saber que é uma forma carinhosa de chamar os mestres) que havia sido díscipulo do Osho. Com uma intuição inocente sabia que ali era o começo de minha viagem. Me preparei como podia, contactei seu ashram, resolvi melhorar meu inglês, juntei o dinheiro necessário, raspei o cabelo e segui para o oriente. Segui sem saber direito meu destino e o que me esperava. Segui feliz, apesar do medo. Segui sabendo que se nada desse certo eu poderia voltar.
Meu primeiro destino foi no centro da Índia, uma cidade chamada Indore. Quando cheguei um conhecido, amigo de meu guia foi me buscar no aeroporto e me levar para o ashram do tal Baba que ficava afastado da cidade. As primeiras impressões da Índia foram "transbordantes", barulho, confusão de carros, bichos e gente. A Índia choca, mas meu olhar inocente só recebia sem julgar.
O ashram era um lugar simples, de uma beleza árida, cuidado com carinho por indianos e ocidentais que lá viviam. De cara senti que ali era um lugar sagrado, onde as pessoas estavam apenas se dedicando ao ser. Algumas pessoas viviam em silêncio, outras com uma alegria pura e inocente, principalmente os indianos. Fui chegando aos poucos, tímida com meu inglês precário, procurando respeitar e relaxar naquele lugar.
Logo que cheguei acontecia uma meditação de sentar em silêncio. Apesar da minha vasta experiência com meditação e grupos de crescimento, nunca antes havia me dedicado ao "sentar". Tudo era estranho, mas minha abertura e sede permitiam eu acolher tudo. Naquele calor absurdo, sem cadeira apropriada me sentei no chão fresco de cimento, encostando na parede. De repente senti um delicado toque de alguém me oferecendo uma almofada. Um gesto de conforto que me fez sentir mais em casa. De repente o mestre entrou silenciosamente e sentou-se conosco. Ali ficamos por um bom tempo. Eu cansada da longa viagem, naquele calor incrível, procurando absorver esta realidade que me havia atirado fui tomada por uma letargia enorme.
Aos poucos fui relaxando neste ambiente simples, numa rotina de meditar, descansar, comer e ajudar em alguns serviços simples, caminhadas no final de tarde com o mestre, conversas informais e amorosas ao redor do mestre sentindo a brisa da noite ao luar. Fui me encantando com a simplicidade daquela vida, com a presença suave das pessoas que ali viviam, e principalmente com a doce sabedoria deste homem que emanava uma presença amorosa e natural.
O dia começava com o raiar do sol às seis da manhã, com a meditação Dinâmica do Osho, e na sequência quando o mestre entrava ficávamos sentados por mais de uma hora. Meu cansaço era tanto que eu dormia o tempo todo do sentar. Um dia tive a chance de comentar sobre isso com o mestre e ele simplesmente disse: "se você estiver muito cansada, apenas vá para o seu quarto descanse um pouco e quando despertar volte para sentar". Tão simples e natural.
Aos poucos fui me sentindo em casa em meio a um universo totalmente novo para mim. Durante o dia sentávamos por mais de cinco vezes, por mais de uma hora. Comecei a descobrir o universo da meditação do sentar em silêncio e nada fazer. Pela primeira vez encarei minha mente de frente sem lutar, deixando que por si só ela esvanecesse. Vivia cada momento com a inocência de uma criança. Infelizmente o meu tempo lá foi curto de apenas três semanas. O ashram fechava na estação das chuvas, as monções, e o Baba iria passar por uma cirurgia do coração.
Uns dias antes de partir, sem saber o que fazer nos próximos 5 meses de viagem, tive a sorte de ter um encontro privado com o Baba. Comentei com ele sobre minhas experiências com a meditação, sobre sannyas (pedir um novo nome) e sobre o prosseguir de minha viagem, do meu interesse em meditar e não fazer turismo simplesmente. Ele foi doce, simples e direto em todas as respostas e ao final me deu um "roteiro" espiritual na Índia, me orientando para lugares e mestres que eu poderia ir visitar. Ao final ele disse: "depois você volta aqui e me conta o que achou." Saí com uma direção, apesar de não saber nada ao certo para onde estava indo. Parti de coração leve, cheio de confiança e uma matéria chamada mistério.
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