quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sede pelo Divino


Deixar a proteção do ashram, do mestre, desta vida simples e silenciosa, para desbravar sozinha a Índia, não foi tarefa fácil. A todo momento uma confiança em algo maior foi me guiando e aos poucos percebi que estava sendo cuidada. Na minha partida do ashram, fui levada por dois amigos indianos até a estação, os quais me levaram literalmente até dentro do trem e lá um deles já encaminhou para que um passageiro me ajudasse a encontrar um taxi na chegada em Nova Delhi, o que foi minha salvação pois ficaria inevitavelmente perdida. A imensidão e confusão de Delhi me assustaram. Tinha um endereço e muito cansaço. Cheguei numa pequena e pacífica pousada. Foi me dado um quarto, do qual não sai nos primeiros três dias.
Aos poucos fui me enchendo de coragem para começar a explorar um pouco a cidade, mas logo vi que deveria seguir meu destino, para lugares menores e mais perto da natureza. Segui o "roteiro" que me havia sido dado pelo Baba, rumo às montanhas para Rishikesh, uma cidadezinha perto da nascente do sagrado rio Ganges. Uma cidade referência para muitos indianos, peregrinos e ocidentais em busca de "espiritualidade". Lá tive a chance de ir à alguns Satsangs (encontro com a verdade) de uma mestra americana com muitos devotos, numa atmosfera de amor e celebração, mas senti que, apesar de ter me sentindo bem, não era o que procurava.
Ao mesmo tempo que me sentia bem por estar próxima da natureza e num ambiente mais relaxado, percebi que deveria seguir meu destino pois o que mais queria era encontrar um lugar onde eu pudesse realmente ir mais fundo na meditação. Rishikesh foi apenas uma transição rápida para o que seria meu destino mais duradouro, uma pequena comunidade mais ao norte, chamada Khakhnal. Lá viviam pessoas que vinham de vários lugares para meditar junto a um outro mestre, que havia sido discípulo do Osho, Samdarshi. Já havia lido que o próprio Osho antes de ir a Poona, queria ter montado sua comunidade neste lindo vale no alto do Himalayas, chamado Kulu-Manali. Khakhnal era um pequeno vilarejo no meio deste vale. Mais uma vez fui acolhida por um anjo que me levou até o meu destino. Em Rishikesh, encontrei uma mulher mais velha, sannyasin que estava indo para o mesmo destino e que gostaria de uma companhia para dividirmos um taxi.

                                         Durante dois dias atravessamos as altas montanhas para chegar neste lugar remoto no meio da Índia, uma viagem reveladora a qual foi me enchendo de uma alegria inocente e suave. A natureza exuberante foi me encantando no caminho o que me fez chegar ao meu destino renovada e pronta para o que a vida estava por me oferecer. Fui recebida com acolhimento por muitos estrangeiros que lá viviam, em um lugar agradável e mais confortável do que o ashram do Baba. Tudo era mais ocidentalizado, e coordenado por pessoas que lá viviam. A atmosfera era mais descontraída de certa forma e talvez menos profunda. 
































Um dia pela manhã, durante o sentar em silêncio depois de ouvir o discurso do Osho, senti um presença entrando silenciosamente na sala. Abri os olhos e vi um homem indiano, de uns quarenta e poucos anos entrar e sentar na cadeira do mestre, era Samdarshi. Fechei os olhos novamente e tentei meditar. Ali iniciava minha relação com este homem, que aos poucos foi me "conquistando". Novamente me via comparando meus sentimentos e impressões. Deixei de lado o que pensava e sentia, para me colocar disponível ao que vivia. Sua sabedoria foi me guiando principalmente no caminho da meditação. Ele me parecia mais um "orientador" espiritual e isso era o que a existência estava me oferecendo.
Minha sede crescia a cada meditação, um anseio quase febril me queimava por dentro. Queria fazer tudo o que estava ao meu alcance. Resolvi fazer 21 dias da Meditação Dinâmica do Osho para me esvaziar. Lembro de sentir uma certa frustração ao encerrar o processo como se "nada" realmente tivesse acontecido. Em um Satsang compartilhei com Samdarshi minha sensação, e ele pontuo direto para algo que não estava enchergando: o quanto minha "vontade" de alcançar algo estava me atrapalhando. Calei fundo e chorei de entendimento.
Teve um período onde vários processos de meditação foram oferecidos e eu participava de todos, buscando incansavelmente saciar uma sede que eu não compreendia. Fizemos sete dias de um grupo chamado Satori, o qual ficávamos respondendo a questão Quem é você? por várias sessões durante o dia. Foi incrível, revelador, me dei conta de que não tinha a mínima idéia de quem eu era. Depois sete dias em Vipassana, sentando em silêncio, observando a respiração. Me sentia como um bebê, só pensava em dormir e comer.
Mais tarde aconteceu um pequeno grupo de pulsação tibetana, o qual criou uma intimidade e relaxamento muito gostoso entre os participantes. Ao término deste grupo, Samdarshi quis encontrar com os que haviam participado do processo. Foi um encontro íntimo onde todos estavam bem a vontade e felizes. Após este encontro Samdarshi se disponibilizou para dar sannyas (um novo nome) para aqueles que quisessem. Me vi diante de uma encruzilhada. Apesar de estar curtindo muito tudo que estava vivendo ali, toda a energia que estava sendo criada no campo deste Buddha, e de me sentir pronta para este momento, ainda não o sentia como meu mestre e não consegui deixar de pensar no Baba. Internamente resolvi que não receberia, que talvez não fosse o momento certo. Mesmo assim me vesti de branco e fui para a cerimônia.
Sentei no final da sala e fiquei observando. A energia de amor na sala foi crescendo e eu fui sendo tomada por algo maior e incontrolável. Aos poucos fui me movendo e aproximando do mestre. Sem ao certo "notar" o que estava acontecendo comigo, meu coração de repente transbordou e eu me lancei na frente de Samdarshi, olhando para ele perguntei se poderia receber um nome. Ele docemente sorriu e me batizou. Fui inundada por muita luz e uma emoção desconhecida que me deixou totalmente "bêbada", chorando e rindo ao mesmo tempo, sem ter a menor idéia do que estava acontecendo. A mente parou de julgar e deixou o coração falar. Ali nascia Priti – aquela que tem sede pelo divino.
Só posso dizer que o dia seguinte deste acontecimento a sensação até mesmo corpórea era de ser uma recém-nascida num corpo adulto. Me sentia leve, feliz, inocente. Passamos o dia todo a passear com Samdarshi pelas montanhas ao redor e posso lembrar internamente da sensação de me mover com um coração puro, sem passado. A mente aquietou e permaneceu quieta por alguns dias. Me sentia abençoada.

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